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Normal em Curitba: pesquisa aponta o curitibano como um povo conservador

5 de jul de 2010

Pesquisa realizada em 22 cidades brasileiras aponta o curitibano como um povo conservador. Mas até que ponto ainda nos cabem certos rótulos e estereótipos?

Levante a mão o curitibano que nunca se incomodou com o já desgastado carimbo do povo tímido, frio ou carrancudo, que há tempos serve para definir os nascidos na capital das baixas temperaturas. Se alguns dizem que somos esnobes ou reservados, outros afirmam que não há brasileiro mais íntegro e confiável do que um curitibano, e a cada pesquisa promovida com a intenção de dar conta de quem somos ficam mais evidentes nossas complexidades e contradições.


A psicoterapeuta Rosana Ferrari explica que, ao mesmo tempo em que as pessoas têm a necessidade de pertencer a grupos sociais, todo mundo deseja ser único. “Pertencer e ser individual são duas necessidades emocionais do ser humano. A primeira permite encontrarmos nossos pares, sermos reconhecidos e confirmados pelo outro, enquanto a segunda nos faz sentir diferentes e especiais, pois não gostamos de ser confundidos. Em ambas o outro está presente, tanto para nos confirmar quanto para nos diferenciar”, analisa. Ser curitibano, portanto, significa se identificar com as características deste grupo social, mas aí nossa individualidade fala mais alto e refutamos certas etiquetas com as quais não concordamos.

A agência Nova S/B realizou há alguns meses o estudo brasileiro Indicadores de Valores e Atitudes (Inova), que ouviu 2.772 pessoas de 18 a 65 anos em 22 cidades do país, entre elas a capital do pinhão e da vina. Entre as conclusões a que os analistas chegaram, os curitibanos seriam um povo mais crítico e cético do que a maioria dos brasileiros, arraigados em valores tradicionais e mais acomodados ou satisfeitos com sua vida atual. Para o povo de Curitiba, a chave da felicidade está na família e o casamento ainda é visto como uma instituição sólida – metade dos entrevistados declararam que é para toda a vida. A pesquisa traz outros números curiosos – até assustadores –, como: quase metade dos curitibanos não vê problemas em ter um revólver em casa – no Brasil, só 24% afirmam o mesmo –, e 29% não teriam amigos homossexuais, contra 18% no restante do país.
 
Para a antropóloga e professora do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ana Luisa Sallas, diante destas informações uma tendência seria tachar o povo daqui de conservador, mas ela salienta a importância de questionarmos o que é ser conservador ou avançado nos dias de hoje. Como contraponto a esse rótulo, ela lembra que, pela mesma pesquisa, 61% dos entrevistados discordaram que a tecnologia tenha afastado os filhos da família, contra 37% dos brasileiros, contestando a tese do povo conservador. Elton Barz, historiador e pesquisador da Casa da Memória da Fundação Cultural de Curitiba, acha importante considerar uma mutação do conceito do ser curitibano. “Hoje, ele é diferente da ideia que tínhamos nos anos 1970, por exemplo, já que atualmente a maior parte da população local veio de outras cidades, o que contribui para introduzir novos comportamentos, hábitos e pensamentos à sociedade curitibana.”


Rosana Ferrrari, que vive na cidade há quase quatro décadas, constata que não só o curitibano reflete a influência das ideias que ele tem de si, como as pessoas de fora também nutrem fantasias sobre o modo local de ser. “Tanto uns quanto outros retroalimentam os estereótipos e se mantêm fiéis a eles. Mas, quando exercitamos o desafio a estas crenças e nos aproximamos, as distâncias se dissipam e os curitibanos se revelam verdadeiramente”, diz.
 
 
Véu e grinalda
Nada é mais valioso para o curitibano do que constituir família. A constatação está na pesquisa Inova, que revela que não apenas há mais pessoas casadas na capital paranaense, como elas costumam ficar mais tempo juntas que a média brasileira. Outro dado interessante: casar de véu e grinalda ainda tem grande importância por aqui. “Hoje, os adolescentes já namoram de aliança, existe um desejo de fortalecer o núcleo familiar da forma mais tradicional, o que antes era questionado pela geração da redemocratização brasileira, por exemplo, que optava por morar juntos sem passar pela igreja ou pelo civil”, analisa a socióloga Margarida Cristina de Quadros.


Contrariando os 42% dos curitibanos que duvidam que seja possível formar uma família sem ter filhos, como mostra a pesquisa, os nutricionistas curitibanos Rafael Curial, 44 anos, e Cristiane Bini Gruber, 46, se consideram felizes e completos, mesmo sem serem pais. Eles também não têm uma certidão de casamento nem ostentam alianças, apesar de morarem juntos há mais de 15 anos. “A aliança está no coração, não nos dedos”, defendem. Colegas de faculdade, só iniciaram o namoro uma década mais tarde, quando Rafael já havia se divorciado da união anterior. “Um dia nós escalávamos o pico Marumbi e, não lembro por que, comentei com o Rafael que não fazia questão de me casar. Ele deve ter pensado naquele momento: encontrei a mulher da minha vida”, conta Cristiane, que mudou para a casa de Rafael depois de seis meses de namoro. “’Vem para cá’ foi meu pedido de casamento”, revela a nutricionista. Na opinião de Rafael, festa de casamento dá trabalho, consome muito dinheiro e não é sinônimo de felicidade. “Metade dos casais que conhecemos hoje está separada. Respeitamos quem tem este sonho, mas discordamos da ideia de oficializar um sentimento com papel e todas aquelas burocracias”, opina.


Maternidade

O historiador e sociólogo Elton Barz concorda que ter filhos é um valor extremamente caro aos curitibanos, mas ressalta que, assim como no restante do país, o número de bebês por casal é cada vez menor. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1990 a taxa de fecundidade nacional era de 2,79, enquanto hoje já está em 1,95 – no Paraná é ainda mais baixa, 1,82. Mesmo assim, a pesquisa Inova constatou que uma parcela significativa da população local não crê que uma mulher possa ser feliz se não for mãe. “Quando dizemos que não temos filhos, algumas pessoas sentem pena de nós”, afirma Cristiane. Em compensação, aos poucos ela e Rafael foram adotando animais abandonados na rua e hoje convivem com três gatos e um cachorro no apartamento.

Contradição

Apesar de tanto valorizar a família, o estudo mostra que o respeito ao idoso é uma preocupação menor em Curitiba. Para Elton Barz, isso está relacionado à definição do conceito de família, que pode ser diferente para curitibanos e outras populações, restringindo-se aqui ao núcleo de pais e filhos. “Mesmo sendo uma sociedade que envelhece, por conta da boa qualidade de vida que a região Sul propicia de modo geral, o idoso aparece apartado dessa sociedade. Talvez porque o curitibano não inclua o idoso em sua família mais próxima”, opina Barz.
 
Trabalho não preocupa
 
“O trabalho enobrece o homem” é uma frase que todos nós ouvimos muito antes de ter idade suficiente para trabalhar. Entretanto, para um número considerável de curitibanos, trabalho árduo e conquista parece ser um valor de menor importância do que para os brasileiros em geral. Na pesquisa da Nova S/B, apenas cerca de 40% responderam que a atividade dá prazer, e quase a metade discorda que sucesso se atinge com trabalho duro. Antes de tachar os engravatados do Centro Cívico de indolentes, é bom dar uma olhada em outro índice: a pesquisa mensal de emprego do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) revela que, há dois meses consecutivos, Curitiba vem apresentando a menor taxa de desemprego do país. Em abril, foi a mais baixa dos últimos sete anos. Com a empregabilidade estável, é natural que os curitibanos tenham feito pouco do trabalho na pesquisa.


Para Elton Barz, o curitibano demonstra ter uma relação com o trabalho semelhante a dos europeus. “São pessoas que gostam de trabalhar não por uma realização pessoal, mas porque o emprego permite adquirir coisas materiais e também fazer coisas como viajar e tirar férias. É um meio, e não um fim em si. O curitibano, portanto, não está preocupado com trabalho, e sim com a empregabilidade”, conclui. Ana Luisa Sallas confirma que, como este índice é mais estável em comparação com o país, a tendência é de que as pessoas não sintam a necessidade de se atualizarem profissionalmente – o que explica 71% dos curitibanos afirmarem que não se sacrificariam para aprender outras línguas, ao contrário de 63% dos brasileiros. E, para uma cidade que prefere estar em casa com os seus, em vez de fazer hora extra no escritório, não é tão difícil compreender estes números.
 
da Gazeta do Povo

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