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Na mais sombria e agitada animação da Pixar, "Toy story 3" aborda o adeus à infância

14 de jun de 2010

14-06-10
Imagine que você tenha feito uma malcriação e seus pais, irritados, tenham trancado todos os seus brinquedos no armário. É compreensível. Mas por 11 anos??!?


Nesta semana, finalmente, vai acabar o castigo para os fãs do desenho animado que deu vida a um punhado de brinquedos e reinventou a arte da animação com o cinema digital. Será a estreia do longa-metragem de animação em 3-D Toy Story 3.

Para quem não conhece os outros dois filmes – lançados pelos estúdios de animação Pixar em 1995 e 1999, com direção de seu fundador, John Lasseter –, o enredo da nova produção pode lembrar tanto uma comédia adolescente como uma paródia à maneira da animação Shrek. Essas histórias sempre tratam do fim da infância. Toy story 3 não seria diferente, se não contivesse os elementos que construíram a glória da Pixar: a conjugação da alta tecnologia com roteiros extraordinários.

Nesse terceiro filme, dirigido por Lee Unkrich, Andy é um rapaz de 17 anos que vai começar a faculdade. A mãe ordena que ele organize seu quarto e se livre de objetos supérfluos. Andy não quer obedecer, pelo menos não totalmente. Joga os brinquedos em um saco plástico para escondê-los no sótão. Mas ele se distrai, a mãe pensa que o saco se destina à doação a uma creche e o leva embora. Só o caubói Woody, esquecido em um canto, escapa e percebe o engano. Apavorados, os outros brinquedos temem ser destruídos pelas crianças pequenas da creche Sunnyside. Woody os encontra e tenta convencê-los de que foi um engano: Andy nunca quis jogá-los fora. Inicia-se então a corrida de volta para casa.

A atmosfera do filme toca o suspense e o terror, com muitas cenas de humor, não raro negro. A certa altura, a creche vira uma versão de prisão de segurança máxima. Em outra sequência de horror, Woody e seus amigos correm o risco de ser despedaçados e incinerados em uma usina de processamento de lixo. Nesse filme, descobrimos que nem todos os brinquedos são bonzinhos. Quando cai a noite e as crianças vão embora, a creche se transforma na versão infantil da ilha presídio de Alcatraz em São Francisco, que a equipe de animadores visitou em suas pesquisas.

Entre as participações especiais há o leão Mr. Pricklepant, um ator shakespeariano dublado na versão original pelo ator britânico Timothy Dalton (ex-James Bond), a boneca Barbie (que pertencia à irmã de Andy) e seu par, Ken, modelo 1986, com direito a trajes “vintage” e números de dança ao estilo da banda pop Abba. Algumas das cenas, de brinquedos sexualizados, combinariam com Shrek. “Nosso público não é apenas criança, mas toda a família”, disse John Lasseter a ÉPOCA. “Todos os desenhos animados de sucesso seguiram a regra.”

A Disney impediu por anos que a Pixar concluísse a trilogia Toy story

Toy story 3 se destina a esse público que cresceu, amadureceu e vai compreender toda a trama. São os mesmos espectadores que levavam as crianças ao cinema quando, há 15 anos, estreou o primeiro Toy story. O desenho causou uma revolução: era o primeiro longa de animação digital. Sua ideia era simples – o mundo infantil mostrado do ponto de vista dos brinquedos. A Pixar foi pioneira em planejar cada movimento, plano, cor, textura e volume tridimensionalmente no computador.

“O material tinha de ser de plástico porque era o único adequado para as ferramentas de animação daqueles tempos”, afirma o diretor Lee Unkrich, que integrou a equipe dos dois outros filmes. “Mesmo as figuras humanas tinham um aspecto irreal, quase não se distinguiam dos brinquedos.” Dois rivais de plástico – o vaqueiro Woody e o astronauta Buzz Lightyear – concorrem pelo amor do menino Andy. Os personagens voltaram quatro anos depois em Toy story 2, dessa vez unidos para escapar da destruição pelas crianças malvadas. É a metáfora da fragilidade dos brinquedos – e do mundo.

No terceiro filme, eles precisam escapar da aniquilação. Os brinquedos adquirem a consciência de que são precários. “Toy story 3 trata de uma mudança radical”, diz Unkrich. “É sobre aceitar as transições da vida. Os brinquedos têm de se conformar que Andy os ultrapassou, está ficando adulto e agora tem de enfrentar o mundo lá fora.” Os brinquedos devem se contentar com outras criancinhas, isso até que elas aprendam a brincar com computadores.

A história dos brinquedos de Andy espelha de forma curiosa a da Pixar. Quando Toy story estreou, Steve Jobs, então presidente da Pixar, disse a Lasseter : “Esta será nossa Branca de Neve”. Jobs acertou. Assim como Branca de Neve e os sete anões, o primeiro longa de animação da história, lançado em 1938, consolidou o império dos estúdios Disney, Toy story, o longa de animação digital pioneiro no cinema, fez da Pixar uma potência. A empresa parecia ter descoberto o segredo do sucesso, perseguido em Hollywood desde o início da indústria, nos anos 1910. No cinema, ninguém sabe nada sobre o segredo do sucesso. Isso até o lançamento de Toy story. “A partir de então, ninguém sabe nada sobre o assunto, exceto a Pixar”, afirma o jornalista Jonah Leher, na reportagem de capa deste mês da revista Wired. “Naquele tempo, todo mundo olhava torto para filmes com computação gráfica”, diz a produtora Darla Anderson. “Animação gráfica não era nem considerada arte. Conseguimos fazer o público entender e amar o que fazíamos. E outros estúdios nos seguiram. Essa foi a revolução.”
 
da Revista Época

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