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Filme sueco sob a luz do noir

28 de mai de 2010

O título é um evidente jogo de palavras com o filme de François Truffaut O Homem Que Amava as Mulheres, com Charles Denner no papel de connaisseur amoroso do sexo oposto. No caso, trata-se do contrário. Saído da imaginação do jornalista e escritor Stieg Larsson (1954-2004), este Os Homens Que Não Amavam as Mulheres entra em registro que nada tem a ver com a atmosfera de sutil erotismo de Truffaut. Pelo contrário, nele tudo é um tanto exasperado, da atmosfera de pós-modernidade ao caráter (e mesmo ao físico) dos protagonistas.


A trama é tirada do primeiro volume da trilogia Millenium, escrita por Larsson, e que se tornou um best-seller mundial. Aqui mesmo, no Brasil, publicado pela Companhia das Letras, os livros chegaram quase a 300 mil cópias vendidas. No filme, Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) é um jornalista da revista Millenium (daí o título da série), que está sendo processado por um figurão em virtude de uma reportagem. Desempregado, Mikael aceita um trabalho freelancer muito bem remunerado: encontrar os traços de uma garota, Harriet, desaparecida há 40 anos. Na época, ela tinha 16 anos e fazia parte de uma poderosa família sueca.

Na história, cruzam-se essas duas figuras, a do jornalista investigativo e a do detetive. Pelo menos no imaginário popular, são fronteiriças. Ambos correm atrás da "verdade", mesmo que esta, como se sabe, tenha em geral vários rostos. Assim, apeado da sua posição na imprensa por uma acusação, Mikael buscará refúgio na atividade paralela. Interessante será a parceira que encontrará para sua aventura: a jovem Lisbeth Salander (Noomi Rapace), inteligência brilhante em informática, hacker contumaz, agressiva, corpo magro atravessado por piercings e tatuagens, bissexual e vivendo em liberdade condicional. Essa, a dupla. Um jornalista maduro e uma jovem transviada.

Não será a única das originalidades do filme nesse gênero batido, mas sempre na moda, o "policial" de tipo noir. Bastante fiel à trama original, o diretor dinamarquês de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, Niels Arden Oplev, segura com firmeza os desdobramentos de uma história que inclui crimes horrorosos, perversões sexuais de tipos variados e o passado nazista de parte das elites suecas. Não é pouca coisa para tratar, mas ele tem tempo para isso: nada menos de 153 minutos de filme. Que, diga-se, passam rapidinho, sem que se sinta.

Carisma. Essa velocidade se deve tanto à intensidade da trama em si, quanto à maneira encontrada por Oplev para lhe ser fiel. Procura manter o essencial da narrativa, e, sem nenhuma preocupação em ser "autoral", dirige de maneira competente e fluida. Os intérpretes ajudam. Têm carisma e levam no rosto (e no corpo) as marcas e asperezas da vida. Além disso, Oplev não se deixa levar por falsos pudores e põe em cena a crueza imaginada por Larsson em seu romance. Deu certo. Pelo menos na Europa, não decepcionou os fãs do livro e foi um sucesso de bilheteria. A questão é saber se no Brasil vai repetir o mesmo êxito nesse gênero tão associado ao cinema norte-americano.

Parece claro que tanto o escritor como o diretor que adapta o texto bebem na fonte generosa do noir - gênero que floresceu nos Estados Unidos, em especial durante os anos 1940 e 1950 e deixou obras notáveis como O Falcão Maltês, O Segredo das Joias e À Beira do Abismo. Filmes de crimes, que muitas vezes colocam em cena um investigador particular e obedecem à regra de descobrir quem fez o quê. Mas há casos em que essa linha de investigação aparece como secundária, pretexto de um cinema que deseja mostrar o desacerto da sociedade como um todo e não apenas o de suas camadas marginais. O noir é datado, mas deixou descendências e desdobra-se em releituras como as de Polanski (Chinatown) ou Tarantino (Pulp Fiction).

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres é filme que dá continuidade a essa tradição, em registro europeu. Ao buscar o paradeiro de alguém desaparecido, os "detetives" Blomkvist e Lisbeth acabam por expor alguns dos esqueletos zelosamente guardados no armário da milenar cultura europeia, que produziu Bach, Beethoven, a Capela Sistina - e Auschwitz.
 
do Estadão

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