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Ricky Martin e os perigos de sair do armário no meio artístico

5 de abr de 2010

O cantor porto-riquenho Ricky Martin acaba de assumir que é gay. Embora a confissão não chegue a surpreender, esse ainda é um passo arriscado para um artista

Ricky Martin acaba de tomar uma decisão delicada para sua carreira: saiu do armário. Na segunda-feira passada, o ex-integrante do grupo juvenil Menudo e intérprete de Livin’ la Vida Loca, sucesso de 1999, postou um texto em seu site no qual afirmava: "Hoje aceito minha homossexualidade como um presente que a vida me deu". Não chega a surpreender: Martin raramente foi fotografado com namoradas, mantém em segredo a identidade da mãe de seus filhos (dois meninos gêmeos, gestados em barriga de aluguel) e no ano passado confessou a uma revista de fofocas que seu coração "poderia pertencer a homens e mulheres". Mesmo assim, ao admitir cabalmente que é gay, o cantor dá um passo arriscado. Nos tempos de Vida Loca, ele encantava as fãs com sua figura de amante latino – esse público feminino ainda vai se deixar seduzir? Na aparência, a música, o cinema e a televisão estão entre os meios profissionais mais abertos à diversidade. O fato, porém, é que subsistem entraves consideráveis aos gays.


"Provavelmente, sou mais feliz do que meus colegas enrustidos. Mas desaconselho qualquer ator a sair do armário", disse o inglês Rupert Everett ao jornal The Guardian. Desde que se assumiu, Everett ficou limitado a papéis de gays ou de ingleses esnobes (veja o quadro abaixo). Até na animação Shrek 2 ele dubla um afetadíssimo príncipe encantado. O trabalho do ator é basicamente fingir ser quem ele não é – mas ainda há resistências à ideia de um gay interpretando um heterossexual. Neil Patrick Harris, que saiu do armário em 2006, foi dos poucos a romper essa barreira. Provocador, no ano passado apareceu passando batom nos lábios na capa da revista New York. Mesmo assim, vive um garanhão na série cômica How I Met Your Mother. E sua carreira está em alta.

A atriz Jodie Foster não teve problemas (tampouco causou surpresa) ao sair do armário, em 2007 – mas já tinha então décadas de carreira. Adiar a revelação, porém, comporta riscos: o artista pode acabar sendo tirado do armário à força. Entre os casos mais escandalosos, está o do cantor George Michael, que em 1998 foi preso em Los Angeles depois de tentar fazer sexo em um banheiro público com um policial disfarçado. A repercussão desmoralizante foi um golpe duro para sua carreira, que nunca mais alçou voo (é claro que escolhas artísticas ruins e problemas com drogas também atrapalharam).

A rejeição inicial ao artista que assume sua homossexualidade não é insuperável. A comediante americana Ellen DeGeneres passou anos patinando depois de se assumir, em 1997. Duas séries de televisão que estrelava foram canceladas. Mas ela conseguiu se reinventar como apresentadora de talk-show e jurada do American Idol. Grande comediante, foi mestre de cerimônias do Oscar em 2007. Não se vive mais a repressão sexual pesada que obrigou astros como Rock Hudson a passar quase a vida inteira no armário – mas ainda há, sim, preconceito. No ano passado, o cantor Adam Lambert, ex-calouro do American Idol, cometeu a ousadia de beijar outro artista na boca durante uma premiação e teve cancelada sua participação em vários programas de TV (para substituí-lo, chamou-se até Chris Brown, que, veja-se só, havia pouco tempo tinha socado a cantora Rihanna). No Brasil, não é tão diferente. Cantoras de MPB, como Cássia Eller e Ana Carolina, não encontram problemas em sair do armário. Mas, por conta do conservadorismo do público, não se concebe que um astro das novelas ou da música sertaneja tome o caminho de Ricky Martin. E há alguns que nem causariam surpresa. Para surpresa deles.
 
Da revista Veja

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